sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Teoremas


Entrei numa loja distraída hoje. Fui ver uns discos, só por ver, porque nunca compro. Olhei pro lado e vi meu professor de matématica do colégio olhando devagar uma seqüência de LP's de jazz. Já não estou mais no colégio há quase 2 anos, mas as lembranças me atropelaram naquela loja. Lembrei o quanto eu odiava matemática. Culpei o homem que estava ali ao lado a vida inteira por isso. Ele me deu aula desde a 7ª série até o final do ensino médio, e, nossa mãe, como eu detestava aquela aula. Carrancudo, metódico, mal humorado. Me parecia que ele queria estar em qualquer outro lugar menos ali, talvez por nunca ter visto ele sorrir. Muitas vezes acho que eu me esforçava pra não entender a matéria só por birra, só pra poder reclamar pelos corredores o quanto ele ensinava mal. Mas tinha quem aprendesse, quem admirasse e defendesse aquele homem que eu destestava, e por ter admiradores vorazes ele dava aula para várias turmas. Por ele passei a repudiar as ciências exatas, o que influenciou diretamente na escolha da minha faculdade. Pintei uma imagem de um matemático frustrado, infeliz, amargurado, frio e odiador da espécie humana.
No entanto, nessa tarde abafada, em um canto qualquer do centro da cidade, eu vi uma cena que me fez sentir uma repleta idiota. O homem sorria a cada disco que ele pegava com delicadeza. Nada parecia com a imagem carrancuda que eu pintei a adolescência inteira. Quando pagava os discos escolhidos me viu e acenou, acho até que sorriu pra mim de leve. Não sei se ele notava que eu o destava, e tive até vontade de pedir desculpas, mas deixei pra lá. Saí pela rua achando graça da futilidade dos sentimentos e das imagens que a gente cria e alimenta, as vezes por tanto tempo, sem nem saber o porquê. (isso tudo me fez lembrar do Calvin)

E nesse dia de encontros casuais, ainda encontrei uma pessoa numa fila de cinema que me deixou desnorteada pelo resto do dia, não sei se pelo acaso ou se pela pessoa. Acho que foi pelas duas coisas juntas.

Ps: Para descontrair, uma pérola antiga de vestibular que me faz lembrar muito minhas provas.

14 comentários:

erica disse...

eu sempre acho bacana quando alguém derruba meus (pre)conceitos.
=)
eu tb tinha um professor carrancudo de matemática no ensino médio, mas fazia parte do grupinho que idolatrava, pq sempre gostei das exatas. (oh, yes... não sei o que faço nas humanas)
beijo, laurits!

Martinho disse...

Já viu a equação que prova que mulher é igual a problemas? É meio machista, mas... não estou inventando, estou só repassando!

http://www.fabioricotta.com/upload/pic00335.jpg

Bacci!

**DouglasCV** disse...

caramba é a primeira vez que visito seu blog e a primeira impressão é a de que ele é muito bom. Belo post esse seu ein, adorei pois isso ja aconteceu comigo e acho que com a maioria das pessoas =].

Nilo Matos disse...

Me permita Laura.

Caro Martinho,
Essa equação que você indicou em:

http://www.fabioricotta.com/upload/pic00335.jpg

não é machista não, ela é gay.

Mulher nunca foi problema, mas sim solução, obviamente se bem conduzida.

Abraços,
Nilo

Marcel Vieira disse...

Adorei.

Martinho disse...

Me permita, Laura.

Caro Nilo,

"Se bem conduzida"? Esclareça-me, é de mulheres ou Kombis que estamos falando?

Abraços,
Martinho

La perdue disse...

Gostei muito do seu post! Já tive a a(dis)ventura de estar dos dois lados: como aluna e como professora. Como aluna já inventei alguns monstros baseados em professores e a cada reencontro pós-escola eu vejo qnto eu era boba.
Como professora me veio a impressão de que algumas vezes os alunos nos vêem como inimigos e isso é extremamente triste pq impede uma troca muito rica de experiências humanas.

Viu como professor também é gente? *;P

La perdue disse...

Aliás, é dEsventura *#P

(viu, somos tão gente que até erramos de vez em qndo! hehehehe)

Lara-Larissa disse...

lembrei de vc, hoje!
Minha chefe me trouxe um caderninho da exposição da clarice!! eu não pude ir nesse fds e estava desolada..!


enfim...
tenho professores que são amigos hoje em dia. tenho tb um que é ex-amor. (feio isso, de ex-amor... acho que amor é pra sempre... senão, não é amor.)
o mais interessante deles foi conhece-los na sala de aula e dps na vida privada...
Lacan explica. ;)

beijos!

Anônimo disse...

Acho que os professores de matematica sempre acabam causando essa impressão, mesmo que não queiram,rs.
Tive uma professora da quinta á oitava série, que era o terror da meninada, tacava ocorrência, olhava feio, esbravejava. Se você sentia ela passar perto da sua carteira, seus poros acordavam de imediato, tamanho o medo,rs.
Mas depois,quando chegamos no primeiro colegial e olhavamos para ela, viamos a doçura, o zelo, o comprometimento com o ensino que ela queria tanto que a gente absorvesse.

Otimo seu texto, otima a tirinha do calvin,ooootima essa perola de vestibular,haha.

desmond disse...

nossa, nunca parei pra pensar nisso. tb recebi essa influencia direta em meu (des)gosto por ciencias exatas.
mas nao imagino meus odiados professores de exatas sorrindo comprando discos de jazz.

Anônimo disse...

Olá, querida
Eu tb já passei por isso co alguns professores na escola e de fato conhecer o gosto musial das pessoas influencia vc a gostar delas ou não, pelo menos comigo >.<
Hj tenho professores na faculdade que eu odeio mas gosto de matéria e vice e versa...
=**

Cadinho RoCo disse...

Tem dia que aparecem pessoas em nosso caminho como que por encanto. Isso também acontece comigo.
Cadinho RoCo

Jana disse...

eu aprendi mais ou menos assim tb que não da pra levar a sério a imagem que a gente pinta na adolescência.

beijos